Blublublublu

novembro 14, 2008

Não é verdade que Marnie Stern seja uma guitarrista “virtuosa”. Ela usa a técnica de tapping com as duas mãos, o que permite tocar muito rápido, mas é só isso. A grande façanha dela, a meu ver, foi transformar essa maneira de tocar – que, no rock, geralmente esteve associada a guitarristas egocêntricos e bandas de metal ruins – em algo original e interessante. No álbum mais recente, que leva o infame título This Is It and I Am It and You Are It and So Is That and He Is It and She Is It and It Is It and That Is That, o que encanta não é a técnica, mas as texturas criadas pela sobreposição de várias pistas de guitarra. Além disso, o disco vale a pena pelas composições e, não menos importante, pela bateria do monstro Zach Hill. Um dos bons álbuns de rock independente gringos que ouvi em 2008.

Muda alguma coisa? (II)

novembro 5, 2008

Por outro lado, gente que sabe muito mais das coisas do que eu está empolgada com a vitória de Obama. Diz o blogueiro Eduardo Guimarães que a vitória de Obama acaba com “os incentivos à mídia latino-americana para atacar governos como o de Lula”. Eu acho isso besteira. Mas espero que ele esteja certo quando diz que “os comentários racistas, homofóbicos e ultraconservadores de um Reinaldo Azevedo sairão de moda” e que “o estilo neocon caminha para a mais absoluta decadência”. Bom mesmo vai ser se, como diz Azenha, o embargo a Cuba estiver com os dias contados. E se Obama, diferentemente de Lula, indicar juízes progressistas para a Suprema Corte dos Estados Unidos, como diz Paulo Henrique Amorim. Aí nós já vamos ter outros brindes marcados na agenda.

Muda alguma coisa?

novembro 5, 2008

Hoje eu vou brindar à vitória de Obama. O New York Times comentou a “queda da barreira racial” e o quanto é impressionante que um homem que há apenas 150 anos poderia ser comprado como escravo tenha chegado à presidência do país mais rico do mundo. O novo presidente dos Estados Unidos é certamente uma resposta à altura da desastrosa política econômica e de relações exteriores de Bush e dos neoconservadores. Mas eu não me iludo. Obama é um progressista em várias questões, mas está longe de ser de esquerda.

O colunista Chris Hedges, do Truthdig, trata de nos lembrar: Obama votou a favor do Patriot Act (aquele que restringiu as liberdades individuais), da continuidade do financiamento à guerra do Iraque e do aumento das tropas no Afeganistão, só pra ficar entre os mais polêmicos. Obama é favorável à pena de morte, contrário a um sistema público de saúde sem fins lucrativos e faz o jogo dos lobistas pró-Israel.

Por isso, hoje eu vou brindar à vitória de Obama, à chegada de um negro à presidência dos Estados Unidos, à volta dos democratas ao poder e, principalmente, à estrondosa derrota de Bush/Cheney/McCain/Palin e turma. Mas eu não arredo o pé. Há vários outros brindes ainda para ser feitos.

Precisamos de mais inferninhos

novembro 3, 2008

Estava cá com meus botões pensando sobre o Festival Música Recife, promovido pela prefeitura no mês passado (do qual, aliás, nós participamos). Eu sei que o tema já esfriou, mas acho importante deixar registrada a minha opinião. O questionamento é o seguinte: o Recife precisa de um festival como esse, inteiramente bancado e organizado pelo poder público?

Não é que eu tenha me tornado um liberal da noite pro dia e agora esteja esbravejando contra a atuação do Estado no fomento da cultura. Mas eu particularmente acho que um festival como esse custa caro, tem pouca utilidade e muda quase nada na enfadonha vida musical da cidade.

O que falta no Recife, na minha opinião, não são palcos ao ar livre e shows gratuitos. A cidade está muito bem servida deles, vide os Pátios de São Pedro e Carnavais da vida. Recife precisa de casas de show, bares, clubes, galpões, inferninhos – espaços privados e formais com um mínimo de estrutura, que sirvam de palco para o imenso número de bandas e artistas que se digladiam na cidade por um cachê da prefeitura.

Hoje, a cidade está relativamente bem servida de canais de revelação de bandas. Bem ou mal, há o Microfonia, os cambaleantes Abril Pro Rock e Recbeat e o festival que vem cumprindo melhor essa função, o Coquetel Molotov. O que falta não são revelações, e sim um circuito em que essas bandas possam se apresentar, estabelecer canais de comunicação com o público e com outros grupos, promover intercâmbio com cenas do resto do Brasil e, na medida do possível, ganhar algum dinheiro. Isso, o Recife não tem. Nesse aspecto, cidades de menor porte que a nossa, como Natal, dão um banho de lama na venérea brasileira.

Depois que uma banda é “revelada” no Recife, o que ocorre com ela? Nada. Absolutamente nada. Ou se muda para outra cidade (leia-se São Paulo), ou monta um “projeto paralelo” para tocar cover de algum medalhão consagrado da MPB, ou simplesmente acaba, como vem acontecendo com a geração de bandas que foi tachada de “cena indie” nos idos de 2004/2004.

(Essa mesma turma vivenciou uma experiência muito interessante enquanto estava praticamente à sua disposição o Teatro Maurício de Nassau, no Recife Antigo. Foi naquele espaço que bandas como Rádio de Outono e Mellotrons começaram a consolidar um público próprio. Com o fim daquele circuito, tenho a impressão que nada semelhante surgiu na cidade. Devo estar enganado. De qualquer forma, casas como aquela fazem falta.)

De que forma o poder público poderia estimular o surgimento desses espaços? Eu não sei. Isso requer um conhecimento mais profundo. Mas falta uma política pública que, por exemplo, desburocratize o acesso de produtores culturais e empresários a imóveis em áreas de interesse, como o Recife Antigo. E, em especial, acho que precisamos de um programa amplo que capacite pessoas para as atividades de produtor cultural e microempresário do ramo. Uma incubadora cultural, nos moldes das que existem nas universidades e institutos tecnológicos, pode ser uma idéia interessante.

Já se foi o tempo em que o papel do Estado era apenas garantir o acesso à cultura. Está na hora de se começar a perceber a música pop, por exemplo, como uma atividade de grande potencial econômico e cultural no Recife, que pode envolver segmentos como o turismo e a tecnologia da informação. É lógico que isso não depende apenas dos governos. Mas eles podem dar uma importante contribuição e, principalmente, gastar melhor os seus orçamentos.

“Acima da Chuva”, do Volver

outubro 4, 2008

Evelhecer fez bem ao Volver. Em “Acima da Chuva”, novo álbum da banda pernambucana, eles praticamente abandonaram os jovenguardismos-via-Porto-Alegre que marcaram o disco de estréia. Em seu lugar, Bruno Souto, Diógenes Baptistella e companhia concentraram as atenções em canções pop bem lapidadas, sóbrias e fiéis à famosa “formação imbatível” definida por Lou Reed: duas guitarras, baixo e bateria.

Os críticos de música de língua inglesa usam a palavra “hook” (gancho) para definir aquele elemento de uma canção que faz com que ela fique marcada nas nossas memórias. Em “Acima da Chuva”, o Volver parece obstinado a encontrá-lo, e consegue. (Acho que no minuto antes de Bruno e Diógenes nascerem, o mundo estava tocando um acorde de preparação para que eles entrassem com um refrão em tom maior.) A primeira faixa, “Pra Deus Implorar”, minha preferida, é um exemplo disso: antes de completar um minuto de duração, já está perfeitamente resolvida: refão, verso, frase de guitarra, tudo.

Contudo, as faixas vão passando (“Dispenso”, “A Sorte”, dois grandes momentos do disco) e esse modelo vai se repetindo. E aí o maior trunfo da banda começa a perder impacto. Até a oitava faixa, “Dia Azul”, é assim que o álbum se desenvolve (a suave “Natural”, outra excelente canção, talvez possa ser considerada uma exceção). O formato guitarra-base-guitarra-solo, que muitas vezes lembra os dois primeiros trabalhos do Strokes (principalmente em “Não Sei Dançar”) e a produção do álbum – correta, mas extremamente óbvia – também não contribuem para que o conjunto das músicas seja dinâmico.

Ah, e eu não tenho como deixar de falar de “Coração Atonal”, o único momento ruim do disco. O climinha de pastiche de psicodelia, os timbres pseudo-vintage e a letra romantico-engraçadinha (“Hey, girl, usei Elton John pra dizer que te amo”) são de deixar qualquer ouvinte com vergonha alheia. Além de fraca, a faixa só ajuda a quebrar a atmosfera do disco. Uma grande bola fora.

“Acima da Chuva” mostra que o Volver não tem mais o que aprender no quesito canção pop. Que isso sirva para que os próximos trabalhos da banda busquem justamente superar, tanto em forma quanto em conteúdo, esse paradigma. E eu tenho convicção de que eles têm capacidade e talento de sobra para isso.

Era de ouro

setembro 27, 2008

Dear Science,” já é o disco de rock mais comentado de 2008, e há razão para tal. Depois do complexo e fantástico “Return to Cookie Mountain“, de 2006, o TV on the Radio resolveu fazer seu próprio “Sign o’ The Times“. No novo álbum, eles soam mais limpos, diretos e pop do que nunca, e, nesse caso, isso é bom.

O TV on the Radio deve ser a banda de rock mais importante dessa década.

Esses são os vídeos do álbum novo.

Golden Age, um dos clipes mais gays de todos os tempos:

e o mais recente, Dancing Choose:

“Sou”

setembro 26, 2008


Marcelo Camelo era (e, até que a banda lance outro disco, eu vou usar o verbo no passado) a parte boa do Los Hermanos: o melhor cantor, o melhor compositor, o melhor músico e um dos que falava menos. Natural, então, que o primeiro disco solo dele, “Sou” (que também pode ser lido como “Nós” de cabeça para baixo) cause tanto furor entre o público, órfão de uma das bandas pop mais populares da década. Quem, como eu, foi para o primeiro show da turnê, no festival do Coquetel Molotov, viu a comoção: mesmo a poucos dias do seu lançamento, a platéia cantou as músicas do começo ao fim, como se as conhecesse de longa data.

“Sou”, apesar da edição luxuosa e da tiragem inicial de 15 mil cópias, em alguns momentos quer ter, sem sucesso, a estética de um álbum independente, low-fi, casual. Logo na primeira faixa, “Téo e a Gaivota”, é possível ouvir o “foi!” do técnico de som mandando a banda iniciar a execução. Ao fim da canção, ouvimos os músicos conversando e o baterista soltando as baquetas sobre a caixa. Esses momentos de bastidores do estúdio, assim como ruídos e sons de ondas do mar, se repetirão por todo o disco. Mas, dadas as devidas proporções, “Sou” está mais para a produção de “Band On The Run” do que para o clima caseiro de “McCartney“. Vide as pomposas cordas em “Santa Chuva” ou a fanfarra de “Copacabana”.

Como álbum, “Sou” peca por uma certa falta de coesão que, aos poucos, vamos percebendo ser intencional, mas, ainda assim, sem fundamento. Para meu ouvido, as canções são divididas em três grupos, que eu batizei de “as difíceis”, “as sérias” e “as caetanas”. Entre essas últimas estão “Vida doce” (com percussão e coros a la Tiêta-eta-eta), “Menina Bordada” e a constrangedora marchinha “Copacabana”, com seus velhinhos bons de papo e suas gordinhas alvoroçadas. As sérias são os momentos banquinho e violão, como “Passeando” (que aparece em dois momentos no álbum, um deles apenas no piano), “Liberdade” (com ninguém menos que Dominguinhos na sanfona) e “Solidão” (outra que também aparece em versão piano). As difíceis, não por acaso, têm o Hurtmold como banda de apoio: “Téo e a Gaivota” (e suas pausas pós-roquianas), a polirrítmica “Tudo passa” e “Mais tarde”.

Desses três grupos, as melhores são, de longe, as difíceis, justamente por mostrarem uma faceta nova de Camelo. A longa introdução de “Téo e a Gaivota”, as suas texturas de guitarra tortoiseanas, os ruídos e as paradas da banda dão ao conjunto final uma sonoridade marcante e muito particular. Mas o cume do disco é “Mais tarde”, em que o Hurtmold chega a soar como (indies xiitas, me dêem um desconto) o Sonic Youth da época de Jim O’Rourke. É também a letra mais forte do disco (“acho normal ver a vida feito faz o mar num grão de areia”). Quando ela acaba, fico um pouco triste com o fato de que momentos como esse não vão se repetir mais nos 55 minutos do álbum.

Mas Camelo também é feliz quando foge dos estereótipos que criou para si mesmo, como em “Menina Bordada”, em que ele bota o Hurtmold pra suingar, ou na simples “Doce solidão” e seu climinha de luau. Pelos acertos serem muito certos, e pelos erros serem muito errados, “Sou” causa em mim a impressão de ser uma obra medrosa e um tanto conservadora. Parece querer soar como um álbum de transição e experimental, mas não é. Apesar disso, não deixa qualquer dúvida: Marcelo Camelo é um dos melhores compositores brasileiros da década. Ele pode errar e ainda assim ser muito bom.

Frases sobre o fim de semana

setembro 22, 2008

O No Ar: Coquetel Molotov é o festival de música pop mais importante do Recife. Eu diria até do Nordeste. É o único que está seriamente comprometido com a revelação de bandas novas e boas.

Mas insiste em dar destaque a “cantoras” e bandas gringas inexpressivas ao invés de dar lugar ao que realmente importa.

A Suécia é o Paraguai da música pop: especialista em fabricar imitações baratas de bandas. Que o digam Shout Out Louds e comparsas.

Trazer essas bandas de tão longe é desperdício de dinheiro e tempo, e ainda polui o meio ambiente.

Peter Bjorn & John se salvam, mas também não são lá essas coisas. Têm umas três músicas boas.

Entre elas não incluo Young Folks.

Não gosto do Hurtmold, mas eles são uma senhora banda de apoio.

Marcelo Camelo sempre foi o cara que valia a pena do Los Hermanos. Ele fez o melhor show dos que eu vi. Apesar da gritaria.

E apesar de Mallu Magalhães.

Hoje vai ter um grande show no céu

setembro 15, 2008

Morreu hoje Rick Wright do Pink Floyd, o tecladista mais gente fina do rock. Ele é o compositor de The Great Gig In The Sky, aquela música que quase faz a gente acreditar que o Dark Side Of The Moon foi feito para casar com as imagens do Mágico de Oz.

Mais um que vai fazer falta.

Um clipe para Fabão (2)

setembro 12, 2008

Parece que o vídeo não está funcionando. Enfim, o link é esse: http://www.youtube.com/watch?v=_9jpkF1ehD8.


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