A decadência dos festivais

By haymone

Fico logo com vontade de esculhambar as “atrações” internacionais que vem para o próximo Abril Pro Rock. Mas aí percebo que meu problema é com a curadoria do festival em si, e não exatamente com as bandas (embora eu particularmente não tenha a menor vontade de ver a volta do New York Dolls, e não me interesse pela joint venture camisa-preta Helloween/Gamma Ray).

Desde que nós tocamos no Mada, o similar potiguar do Abril, venho pensando sobre isso: os grandes festivais perderam a razão de existir. A estrutura gigante deles implica em custos muito altos, que precisam ser justificados com a escalação de dinossauros do rock (brasileiros ou não), encarregados de atrair um público grande e ao menos compensar os gastos do festival (eu nunca consultei a contabilidade de um evento desse tipo, mas acho que é por aí). Mas isso acaba por ofuscar a função mais importante que esses shows costumavam ter: revelar bandas novas e dar voz ao que está acontecendo de novo na música do País.

No Mada, por exemplo, as independentes faziam shows de meia hora, sem intervalo entre uma banda e outra. As apresentações começavam num horário que tinha pouca gente na arena, ainda no comecinho da noite, e é importante ressaltar que o primeiro dia do festival é uma quinta-feira. À medida que as horas iam passando, o público de bandas como Detonautas e Marcelo D2, completamente desinteressado, ia chegando. Uma maçaroca de bandas fazendo apresentações de meia hora sem intervalos é para deixar até o indie mais xiita de saco cheio.

Acho que eventos de médio porte, como o Coquetel Molotov, têm cumprido esta tarefa com muito mais sucesso, e sem precisar fazer grandes concessões, sem ter que chamar o Sepultura e o Ratos de Porão todo ano. Eles atraem as pessoas, mesmo que em número restrito, por serem propositivos, porque querem trazer algo novo, mesmo que obscuro. O modelo do Abril Pro Rock é exatamente o contrário: talvez por uma estratégia de sobrevivência, se apoia em nomes batidos e muitas vezes anacrônicos. Por isso, creio que não é caso do acaso o notável encolhimento do público do festival e a necessidade de mudança para um ambiente de porte consideravelmente menor.

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