Posts de Abril, 2008

Nem Bartók, nem Puskás

Abril 27, 2008

Pois então, eu agüentei. Mas não gosto de contar isso a ninguém, não gosto de tirar a fé das pessoas, a fé num lindo equívoco, que origina tantos sofrimentos, mas também muitas coisas maravilhosas: atos heróicos, obras de arte, esforços humanos extraordinários. Você se acha num estado de espírito desses, eu sei. Ainda assim quer que eu diga?…
Bem, se você quer. Mas depois não fique zangada comigo. Veja, querida, Deus me surrou e me castigou com isso, com o fato de que eu descobri e suportei e não morri. O que descobri?… Bem, que não existe mulher de verdade.
Um dia despertei, sentei na cama e sorri. Nada mais doía. E de súbito compreendi que não existe mulher de verdade. Nem na terra nem no céu. Não existe em lugar algum, aquela. Existem apenas pessoas, e em todas há um grão da verdadeira, e nenhuma delas tem o que do outro nós esperamos e desejamos. Não existe pessoa completa, e não existe aquela, a única, a maravilhosa, plenamente satisfatória, excepcional. Existem apenas pessoas, e em cada pessoa existe também tudo, dejeto e luz, tudo… Lázár sabia disso quando à porta da sua casa eu me despedi e ele silenciou, sorriu, porque eu disse que ia embora e procuraria a mulher de verdade para o meu marido. Ele sabia que ela não existe em lugar algum… Mas ele calou, e depois foi para Roma e escreveu um livro. No final, os escritores sempre fazem isso.
Meu marido, coitado, não era escritor; era um burguês e um artista que não tinha uma forma de expressão. Por isso sofria. E, quando um dia apareceu Judit Áldozó, que ele acreditava ser a mulher de verdade, e ela usava colônia Atkinson e disse, meio à inglesa, no telefone: “Hello!”, nós nos separamos. Foi uma separação difícil, como eu disse, levei embora até mesmo o piano.
Ele não se casou com ela logo, mas somente depois de um ano. Como eles vivem?… Acho que bem. Você viu há pouco, ele estava levando cascas de laranja cristalizada para ela.
Só que ele envelheceu. Não muito, mas de um modo triste. Que acha, ele já sabe?… Receio que seja tarde quando descobrir; nesse meio-tempo a vida terá passado.
Veja, eles vão fechar mesmo.
Sim?… O que você está perguntando? Por que eu chorei há pouco, quando o vi? Se um dia passa a não existir mais a mulher de verdade e tudo acaba e a gente se cura, por que comecei a passar pó no rosto quando ouvi que ele ainda guardava a carteira de crocodilo? Espere, vou pensar. Acho que sei a resposta. No meu constrangimento, comecei a passar pó no rosto porque a mulher de verdade não existe, porque as ilusões passam, mas eu gosto dele, e isso faz toda a diferença. Quando gostamos de uma pessoa, o coração bate forte sempre que ouvimos falar nela ou a vemos. Na realidade, acredito que tudo passe, a não ser o amor. Mas isso não tem mais nenhum significado prático.
Um beijo, querida. Terça que vem de novo aqui, você quer?… Conversamos tão bem. Por volta das seis e quinze, se for bom para você. Não muito mais tarde. Eu certamente estarei aqui às seis e quinze.

Este é um trechinho disponível no site da Companhia das Letras de De Verdade, livro do escritor húngaro Sándor Márai, indicado por Schneider.

2 + 2 = 5

Abril 19, 2008

Nunca simpatizei com a carreira da engenharia. Sempre tive aversão aos números, e isto definitivamente me afastou dessa área. Passei a vida toda com a impressão de que a formação dos engenheiros era uma coisa bitolada, simplesmente técnica. Talvez até seja.

Nas últimas duas semanas, contudo, mergulhei na história da Escola de Engenharia de Pernambuco para um trabalho que estamos produzindo. E fiquei encantado. Além de ter sido uma das pioneiras no Brasil (mais precisamente a quarta, primeira do Nordeste, fundada em 1895), a Escola tem um passado no mínimo curioso. Quando foi fundada, era uma instituição estadual. Depois, por motivos que não me parecem claros, foi extinta pelo governador Sigismundo Gonçalves, em 1904. A história chapa-branca diz que o estado passava por momentos de dificuldade financeira e por isso não poderia mantê-la. Mas um entrevistado conta que ela foi extinta pela birra dos professores, que não aceitaram aprovar alunos por indicação política. Uma espécie de punição.

Escola Livre de Engenharia, 1919

A parte mais bonita da história vem logo a seguir: mesmo com a sua extinção formal, ela continua a existir na forma da Escola Livre de Engenharia, e por vários anos funcionará assim, sem ligação com o estado. Sustentada por taxas pagas pelos alunos. De acordo com essa pessoa que entrevistei, os professores sequer recebiam salários.

Uns vinte anos depois ela volta a ser estadual, depois é incorporada à Universidade do Recife, depois é federalizada e finalmente começa integrar a Universidade Federal de Pernambuco. Lá pelos anos quarenta, ainda estadual, passa a funcionar no prédio que está até hoje no número 371 da Rua do Hospício. Aliás, uma lástima: as pessoas na faixa dos 25 anos, como eu, conhecem esse prédio não como um marco da nossa história, mas simplesmente como o lugar onde se tirava carteira de estudante. A União Nacional dos Estudantes funcionou lá por um tempo. Não sei se permanece no prédio. Não sou mais estudante.

Enfim, com a mudança para o campus, nunca foi dada à construção o status que ela realmente merece. Atualmente, funciona no local o Ginásio Pernambucano. Mas a idéia dos professores é transformar o prédio num memorial da engenharia pernambucana, mais ou menos como se fez com a antiga faculdade de medicina no Derby.

Mas, voltando à história, outro momento marcante da Escola é quando a Ditadura faz a reforma universitária. Com ela, a escola perde o seu nome. Passa a se chamar Centro de Tecnologia e Geociências. Não tenho base para afirmar isso, mas talvez aí o ensino da engenharia tenha começado a se tornar puramente tecnicista.

O que é uma pena, já que da escola sairam grandes lideranças políticas, como Pelópidas Silveira, prefeito do Recife por duas vezes, hoje na casa dos 90 anos. Teve prefeito do Recife que foi ao mesmo tempo chefe do Executivo municipal e diretor da instituição. Mestres como Antônio Baltar, o autor do primeiro plano diretor do Recife (e para quem é dedicado o poema O Engenheiro, de João Cabral), foram exilados. Veio da escola o grande Joaquim Cardozo que, além de engenheiro, era poeta e foi o calculista da cidade de Brasília, ao lado de Oscar Niemeyer. Tem uma matéria interessante sobre ele aqui. Um trecho:

Sobre o calculista, Niemeyer declarou:

“… Quando o engenheiro especializado em cálculos atualiza seus conhecimentos profissionais, quando está a par de todos os avanços da técnica da construção, quando ele abandona as regras e as normas limitativas para especular somente sobre os problemas colocados pelo concreto armado, porque descobriu que é a melhor maneira de evoluir; quando ele conhece não só a profissão, mas também as artes visuais e a verdadeira arquitetura – o que, aliás, é raro -, enfim, quando ele consegue se entusiasmar não só pelo problema técnico a solucionar, mas também pelo sentido artístico e criador da obra para a qual colabora, então sua associação com o arquiteto torna-se fecunda e positiva”.”Ao longo da minha vida profissional, tive o privilégio de encontrar esse complemento essencial na colaboração amiga e superior de Joaquim Cardozo. Ele está sempre decidido a encontrar a solução justa para cada problema.

Uma solução que preserva a forma plástica sob todos os seus aspectos, quaisquer que sejam as dificuldades possíveis, porque ele tem, como eu, a certeza de que para se transformar em uma obra de arte, a arquitetura deve, antes de mais nada, ser bela e marcada de um espírito criador.”

Em 1995 – portanto, no seu centenário – a Escola retoma o seu nome original. Passa a se chamar Centro de Tecnologia e Geociências/Escola de Engenharia. Uma homenagem mais do que justa.

“Vão mexer nos meus seriados?”

Abril 19, 2008

Texto que escrevi pro último suplemento sobre o projeto de lei que, entre outras coisas, obriga as TVs por assinatura a veicularem produção nacional e independente.

Países como França, Canadá, Alemanha e Espanha estabelecem cotas para a produção independente nos canais de TV por assinatura. O Brasil, ainda não, mas o Projeto de Lei 29/07 prevê, entre outras coisas, uma medida semelhante no país. Se aprovado na íntegra, garantirá que 10% da programação será de autoria de produtoras independentes nacionais. As empresas de TV por assinatura, contudo, não querem ouvir falar em regulamentação.

Desde dezembro do ano passado, a Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) convoca seus telespectadores (e sua bancada no Congresso) a “deter a sanha autoritária e a censura” e “lutar pela liberdade na TV” através de uma campanha veiculada no site www.liberdadenatv.com.br e de anúncios nos próprios canais. Eles são contrários ao projeto e, entre várias acusações, alegam que as cotas vão reduzir a diversidade cultural, tirar a liberdade de escolha do consumidor e criar uma reserva de mercado ao invés de ajudar a fomentar a produção nacional.

De acordo com a campanha da ABTA, as cotas ameaçam a retirada do ar de canais consagrados “que não possam cumprir os critérios do atual Projeto de Lei”, como TNT, Sony, Warner, Cartoon Network, National Geographic, Disney, MGM e outros. Diz ainda, com base num estudo encomendado, que as mensalidades dos assinantes podem ficar até 80% mais caras, tornando o serviço “inacessível a milhares de brasileiros que hoje são assinantes”. As cotas, segundo as emissoras, também reduzem drasticamente a possibilidade do serviço ser universalizado no Brasil. A assessoria de imprensa da entidade que representa as democráticas TVs por assinatura foi procurada para explicar estes e outros assuntos, mas não deu qualquer retorno até o fechamento desta edição.

As organizações ligadas aos produtores independentes e à democratização dos meios de comunicação, contudo, apóiam a iniciativa e estão prontas para rebater os argumentos da ABTA. Em meados de março, elas publicaram um manifesto em defesa do Projeto de Lei. Nele, defendem que “uma política de cotas, aliada a uma forte política de estímulo à produção nacional, como consta no projeto, é a fórmula ideal para fortalecer a indústria audiovisual brasileira”.

O manifesto contesta a acusação de que as cotas vão tornar a TV por assinatura mais cara. Com base em dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine), afirma que o Brasil já tem hoje um dos serviços de TV por assinatura mais caros do mundo e o segundo pior percentual de penetração junto à população em toda a América Latina, de apenas 8,1%. “O alto preço cobrado pelas programadoras pela venda de canais às empacotadoras (que comercializam os pacotes de canais) e o modelo de negócio das operadoras, sustentado no alto valor da assinatura, fazem com que a base de assinantes não cresça de forma significativa. Ao mesmo tempo, dificultam a obtenção de uma escala maior de assinantes, criando um círculo vicioso que mantém o preço do serviço nas alturas e impede seu acesso pela maior parte da população”, diz o texto.

Dados da Ancine revelam que, de fato, a produção brasileira ainda ocupa pouco espaço na TV paga do país. Os dez principais canais de filmes da TV paga exibiram apenas 0,5% de conteúdo brasileiro no quarto trimestre de 2006, de acordo com o estudo. “A TV por assinatura no Brasil é ocupada fundamentalmente por conteúdo internacional”, afirma João Brant, coordenador do Intervozes, uma das entidades signatárias do manifesto. “O mercado brasileiro coloca a produção nas mãos de quem veicula o conteúdo. Não é o modelo usado na maior parte do mundo, tanto para a TV aberta quanto para a TV por assinatura”, diz.

Outra medida que tem o apoio dos produtores independentes e consta no Projeto de Lei é o direcionamento de parte dos recursos que hoje são destinados ao Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel) para o Fundo Nacional de Cultura (FNC), com o objetivo de fomentar a produção audiovisual brasileira. O projeto não prevê aumento da carga tributária. Ele diminui em 10% a tabela do Fistel e cria uma contribuição para o audiovisual com o mesmo montante. Com isso, cerca de R$ 300 milhões a mais por ano seriam destinados ao FNC. Segundo a Ancine, as leis do Audiovisual e Rouanet captaram, em 2006, R$ 150 milhões. A estimativa do projeto é de que, com o direcionamento dinheiro do Fistel, o mercado audiovisual brasileiro tenha três vezes mais recursos disponíveis. A ABTA é contrária à medida, e diz que ela vai gerar aumento de impostos. Sugere que os recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) sejam usados para estes fins.

Empresas como Abril e Band já sinalizaram apoio ao Projeto de Lei. Hoje, é importante ressaltar, o mercado das TVs por assinatura é controlado pela Globo. Elas também tem interesse em ampliar sua participação num setor que, só em 2006, de acordo com a Ancine, faturou R$ 5,13 bilhões e foi responsável pela remessa de cerca de R$ 500 milhões ao exterior.

Mais links

Abril 18, 2008

Aqui tem uma entrevista excelente na Revista Fórum com Paulo Henrique Amorim. Meu trecho preferido:

Fórum – O senhor acredita que essa degradação se agravou durante o processo de privatização?

Amorim – O presidente do México, Carlos Salina de Gortari, vendeu a telefonia do México para uma pessoa, que é o Carlos Slim, hoje o homem mais rico do mundo. Salinas de Gortari teve que fugir do México para a Irlanda porque nem em Miami ele podia ficar. O Fujimori, que fez a privatização no Peru, está preso. O Carlos Menem, que fez a privatização na Argentina, tem vários ministros na cadeia e não pode ver um juiz ou policial que sai correndo, pode ser preso a qualquer momento. Aqui no Brasil o Fernando Henrique Cardoso cobra US$ 60 mil por palestra e sai no PIG toda hora. E as pessoas levam o Fernando Henrique a sério, é o herói de uma parcela da população brasileira.

Na minha época se chamava “álcool”

Abril 18, 2008

Eu também não gosto dos biocombustíveis. Como diria o padre da CPT que eu entrevistei uma vez: tanque cheio, barriga vazia.

Mais R.E.M.

Abril 13, 2008



Por esta eu não esperava: aqui está a primeira apresentação do R.E.M. na televisão americana, em 1983, no programa de David Letterman. O jovem Haymone tinha apenas um aninho de idade. No exato momento em que eles começaram a tocar So. Central Rain, que na época, pelo que parece, não tinha nem nome ainda, o R.E.M. era provavelmente a melhor banda de rock do mundo.

Tem ainda mais dois achados: Driver 8 e Harbourcoat ao vivo em 1985. Michael Stipe não está a cara de Billy Idol?

Quem ainda precisa do R.E.M.?

Abril 13, 2008

Bom saber que o R.E.M. voltou a ser o R.E.M. depois dos fracos Reveal e Around The Sun. Bom perceber que, apesar dos cabelos grisalhos, Peter Buck continua sabendo tirar riffs de vinte-e-poucos-anos da velha Rickenbaker. Bom ouvir os vocais de apoio esganiçados mas sempre bem colocados de Mike Mills. Bom saber que Michael Stipe ainda é capaz de escrever uma boa letra de música, mesmo que tenha deixado de lado há algum tempo aquele ar enigmático para ser mais direto: you realized your fantasies are dresses up in travesties, enjoy yourself with no regrets, sem medo de parecer um tiozão dando conselhos à nova geração. Mas eu ainda não consegui digerir este disco novo do R.E.M.

Complexo de telemarketing

Abril 3, 2008

Nunca entendi porque as pessoas dizem “celular de fulano” quando atendem o telefone de outra pessoa.