E já sabe falar

By haymone

Mais um texto meu para o suplemento cultural do Diário Oficial do Estado. Este foi publicado hoje.

Crianças-prodígio não são novidade no mundo da música. A história diz que Mozart começou a tocar as primeiras notas no piano aos quatro anos e que, aos cinco, já havia escrito algumas peças. Chopin dava concertos aos sete. Bach, Beethoven, Brahms, todos eles tiveram algum destaque ainda nos primeiros anos de vida. A música pop do século vinte também está cheia de crianças talentosas, como Stevie Wonder, que assinou seu primeiro contrato com a gravadora Motown aos doze anos e aos treze já havia chegado ao topo da parada norte americana; ou Michael Jackson, irmão caçula que aos oito já era o principal vocalista e dançarino do Jackson 5, só para ficar nos mais óbvios. Não foram eles, certamente, os únicos talentos infantis das suas respectivas épocas. A precocidade, na maioria desses casos, é um dado biográfico que ajuda a entender a genealogia de um talento já consolidado. Mozart não era Mozart aos cinco anos; era apenas uma criança com um talento descomunal. Hoje, contudo, isso parece ter mudado. Na era do jornalismo em tempo real, não é relevante que um talento se desenvolva. É a existência do talento que vira notícia. O que importa é o fait divers: o como, quando e quem produziu; a obra em si fica num distante segundo ou terceiro plano.

Isso vem sendo percebido na mídia “especializada” brasileira, que parece ter despertado recentemente para os prodígios da terra, sem prestar muita atenção no som que está saindo dos alto-falantes. Algumas das mais badaladas novidades do mundo musical estão longe de chegar à maioridade, como a cantora paulista Mallu Magalhães, de apenas 15 anos. Do lado de cá, os holofotes estão voltados para o pianista pernambucano Vitor Araújo, 18, integrante do cast de uma das maiores gravadoras independentes do Brasil, a Deckdisc, que lançou seu Transtorno Obsessivo Compulsivo em dualdisc (CD num lado, DVD no outro).

Mallu diz ser influenciada por Bob Dylan e Johnny Cash, canta em português, inglês e francês e toca violão, gaita e piano. Ganhou as primeiras seis cordas aos oito e, aos 15, pediu de presente de aniversário a gravação das suas músicas num estúdio. De repente, o site de Mallu no My Space havia recebido mais de um milhão de acessos, a menina foi citada em vários blogs e revistas de música, apareceu na MTV, no Jô Soares, na propaganda da Vivo e foi elogiada até por Tom Zé. Mallu é afinada, tem presença vocal e, principalmente, carisma. Ela se esforça para parecer sabida. É a típica menina branca da classe média letrada que estuda em colégio construtivista, faz cultura inglesa, vai prestar vestibular para comunicação ou artes, prefere cinema de arte a blockbuster e ouve “música boa”, ou seja, aquela que pessoas mais velhas aprovam.

Mallu é um talento. A música dela, contudo, é de uma simplicidade que, no máximo, faz com que passe despercebida. São canções de três acordes de uma menina que, como tantas outras, se empolgou ao conseguir fazer sua primeira pestana. Mas ela tem 15 anos e, numa era em que qualquer coisa vale para se destacar na turba de novos artistas que surgem a cada minuto, isto definitivamente conta a seu favor.

Com relação a Vitor Araújo, era impossível não ficar do lado dele depois da polêmica com o compositor Marlos Nobre, que enviou cartas a um jornal local criticando o jovem pianista, e até ameaçando processá-lo, pelo improviso feito em cima do seu Frevo para Piano. Naquele instante, Vitor era um soldado franzino de camiseta, jeans e all star enfrentando todo o reacionarismo e a ortodoxia do mundo da música erudita, e isso me fez simpatizar com ele de cara. Nobre tentou desqualificá-lo, chamando-o de “jovem aspirante a pianista”. Não conseguiu. Vitor bem sabe que é um aspirante a pianista mesmo, que tem muita técnica a aprender se quer se tornar um músico do quilate de Nelson Freire. Nem por isso se desencorajou.

Vitor é um jovem talento rebelde, mas peca por querer faturar em cima dessas três qualidades. Parece obstinado com a idéia de ser acessível, pop, contemporâneo e ao mesmo tempo quer transformar tudo isso numa mercadoria que venha com o selo de qualidade “música boa”, ideal para dar de presente a tios, tias, sobrinhos e sobrinhas. O repertório de Vitor está cheio de cânones e obviedades (Chico Buarque para agradar ao pessoal da MPB, Radiohead para o pessoal mais novo) e isso, associado à forma como ele quer chamar atenção para a sua performance e seu jeito de vestir, me faz crer que ele está no caminho errado.

Vitor e Mallu me lembram aquela máxima do futebol que diz que, se surge um talento nas divisões de base do time, o técnico deve preservá-lo para que o jovem não seja “queimado” pela torcida. No jogo da música tem sido diferente. Apesar do talento inegável dos dois, a música de Vitor e Mallu não faz sentido sem o manual de instruções que informa a idade de quem a está executando. Atualmente, eles só estão tapando a lacuna do novo para a cambaleante indústria do entretenimento. Em alguns anos, deixarão de ser novidade, e outras, talvez ainda mais novas, surgirão.

Tags: ,

2 Respostas para “E já sabe falar”

  1. maxwelinne Disse:

    ótimo texto!
    acho malu magalhães muito simplória e óbvia mesmo…
    a mídia que a colocou no top, mas espero que se torne algo mais…quem sabe…
    ainda não conheço esse vitor araújo…vou me informar a respeito dele…

    abração pra tu, velho amigo!

  2. thiagogothai Disse:

    Adorei seu texto, e admiro bastante o trabalho da mallu magalhães.

Deixe um comentário

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.