“Sou”

By haymone


Marcelo Camelo era (e, até que a banda lance outro disco, eu vou usar o verbo no passado) a parte boa do Los Hermanos: o melhor cantor, o melhor compositor, o melhor músico e um dos que falava menos. Natural, então, que o primeiro disco solo dele, “Sou” (que também pode ser lido como “Nós” de cabeça para baixo) cause tanto furor entre o público, órfão de uma das bandas pop mais populares da década. Quem, como eu, foi para o primeiro show da turnê, no festival do Coquetel Molotov, viu a comoção: mesmo a poucos dias do seu lançamento, a platéia cantou as músicas do começo ao fim, como se as conhecesse de longa data.

“Sou”, apesar da edição luxuosa e da tiragem inicial de 15 mil cópias, em alguns momentos quer ter, sem sucesso, a estética de um álbum independente, low-fi, casual. Logo na primeira faixa, “Téo e a Gaivota”, é possível ouvir o “foi!” do técnico de som mandando a banda iniciar a execução. Ao fim da canção, ouvimos os músicos conversando e o baterista soltando as baquetas sobre a caixa. Esses momentos de bastidores do estúdio, assim como ruídos e sons de ondas do mar, se repetirão por todo o disco. Mas, dadas as devidas proporções, “Sou” está mais para a produção de “Band On The Run” do que para o clima caseiro de “McCartney“. Vide as pomposas cordas em “Santa Chuva” ou a fanfarra de “Copacabana”.

Como álbum, “Sou” peca por uma certa falta de coesão que, aos poucos, vamos percebendo ser intencional, mas, ainda assim, sem fundamento. Para meu ouvido, as canções são divididas em três grupos, que eu batizei de “as difíceis”, “as sérias” e “as caetanas”. Entre essas últimas estão “Vida doce” (com percussão e coros a la Tiêta-eta-eta), “Menina Bordada” e a constrangedora marchinha “Copacabana”, com seus velhinhos bons de papo e suas gordinhas alvoroçadas. As sérias são os momentos banquinho e violão, como “Passeando” (que aparece em dois momentos no álbum, um deles apenas no piano), “Liberdade” (com ninguém menos que Dominguinhos na sanfona) e “Solidão” (outra que também aparece em versão piano). As difíceis, não por acaso, têm o Hurtmold como banda de apoio: “Téo e a Gaivota” (e suas pausas pós-roquianas), a polirrítmica “Tudo passa” e “Mais tarde”.

Desses três grupos, as melhores são, de longe, as difíceis, justamente por mostrarem uma faceta nova de Camelo. A longa introdução de “Téo e a Gaivota”, as suas texturas de guitarra tortoiseanas, os ruídos e as paradas da banda dão ao conjunto final uma sonoridade marcante e muito particular. Mas o cume do disco é “Mais tarde”, em que o Hurtmold chega a soar como (indies xiitas, me dêem um desconto) o Sonic Youth da época de Jim O’Rourke. É também a letra mais forte do disco (“acho normal ver a vida feito faz o mar num grão de areia”). Quando ela acaba, fico um pouco triste com o fato de que momentos como esse não vão se repetir mais nos 55 minutos do álbum.

Mas Camelo também é feliz quando foge dos estereótipos que criou para si mesmo, como em “Menina Bordada”, em que ele bota o Hurtmold pra suingar, ou na simples “Doce solidão” e seu climinha de luau. Pelos acertos serem muito certos, e pelos erros serem muito errados, “Sou” causa em mim a impressão de ser uma obra medrosa e um tanto conservadora. Parece querer soar como um álbum de transição e experimental, mas não é. Apesar disso, não deixa qualquer dúvida: Marcelo Camelo é um dos melhores compositores brasileiros da década. Ele pode errar e ainda assim ser muito bom.

Tags: , , , ,

Uma resposta para ““Sou””

  1. juliaporto Disse:

    mudando de batman pra robin, e o little joy?

    http://www.myspace.com/littlejoymusic

Deixe uma resposta

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.