Evelhecer fez bem ao Volver. Em “Acima da Chuva”, novo álbum da banda pernambucana, eles praticamente abandonaram os jovenguardismos-via-Porto-Alegre que marcaram o disco de estréia. Em seu lugar, Bruno Souto, Diógenes Baptistella e companhia concentraram as atenções em canções pop bem lapidadas, sóbrias e fiéis à famosa “formação imbatível” definida por Lou Reed: duas guitarras, baixo e bateria.
Os críticos de música de língua inglesa usam a palavra “hook” (gancho) para definir aquele elemento de uma canção que faz com que ela fique marcada nas nossas memórias. Em “Acima da Chuva”, o Volver parece obstinado a encontrá-lo, e consegue. (Acho que no minuto antes de Bruno e Diógenes nascerem, o mundo estava tocando um acorde de preparação para que eles entrassem com um refrão em tom maior.) A primeira faixa, “Pra Deus Implorar”, minha preferida, é um exemplo disso: antes de completar um minuto de duração, já está perfeitamente resolvida: refão, verso, frase de guitarra, tudo.
Contudo, as faixas vão passando (“Dispenso”, “A Sorte”, dois grandes momentos do disco) e esse modelo vai se repetindo. E aí o maior trunfo da banda começa a perder impacto. Até a oitava faixa, “Dia Azul”, é assim que o álbum se desenvolve (a suave “Natural”, outra excelente canção, talvez possa ser considerada uma exceção). O formato guitarra-base-guitarra-solo, que muitas vezes lembra os dois primeiros trabalhos do Strokes (principalmente em “Não Sei Dançar”) e a produção do álbum – correta, mas extremamente óbvia – também não contribuem para que o conjunto das músicas seja dinâmico.
Ah, e eu não tenho como deixar de falar de “Coração Atonal”, o único momento ruim do disco. O climinha de pastiche de psicodelia, os timbres pseudo-vintage e a letra romantico-engraçadinha (“Hey, girl, usei Elton John pra dizer que te amo”) são de deixar qualquer ouvinte com vergonha alheia. Além de fraca, a faixa só ajuda a quebrar a atmosfera do disco. Uma grande bola fora.
“Acima da Chuva” mostra que o Volver não tem mais o que aprender no quesito canção pop. Que isso sirva para que os próximos trabalhos da banda busquem justamente superar, tanto em forma quanto em conteúdo, esse paradigma. E eu tenho convicção de que eles têm capacidade e talento de sobra para isso.
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