Precisamos de mais inferninhos

Estava cá com meus botões pensando sobre o Festival Música Recife, promovido pela prefeitura no mês passado (do qual, aliás, nós participamos). Eu sei que o tema já esfriou, mas acho importante deixar registrada a minha opinião. O questionamento é o seguinte: o Recife precisa de um festival como esse, inteiramente bancado e organizado pelo poder público?

Não é que eu tenha me tornado um liberal da noite pro dia e agora esteja esbravejando contra a atuação do Estado no fomento da cultura. Mas eu particularmente acho que um festival como esse custa caro, tem pouca utilidade e muda quase nada na enfadonha vida musical da cidade.

O que falta no Recife, na minha opinião, não são palcos ao ar livre e shows gratuitos. A cidade está muito bem servida deles, vide os Pátios de São Pedro e Carnavais da vida. Recife precisa de casas de show, bares, clubes, galpões, inferninhos – espaços privados e formais com um mínimo de estrutura, que sirvam de palco para o imenso número de bandas e artistas que se digladiam na cidade por um cachê da prefeitura.

Hoje, a cidade está relativamente bem servida de canais de revelação de bandas. Bem ou mal, há o Microfonia, os cambaleantes Abril Pro Rock e Recbeat e o festival que vem cumprindo melhor essa função, o Coquetel Molotov. O que falta não são revelações, e sim um circuito em que essas bandas possam se apresentar, estabelecer canais de comunicação com o público e com outros grupos, promover intercâmbio com cenas do resto do Brasil e, na medida do possível, ganhar algum dinheiro. Isso, o Recife não tem. Nesse aspecto, cidades de menor porte que a nossa, como Natal, dão um banho de lama na venérea brasileira.

Depois que uma banda é “revelada” no Recife, o que ocorre com ela? Nada. Absolutamente nada. Ou se muda para outra cidade (leia-se São Paulo), ou monta um “projeto paralelo” para tocar cover de algum medalhão consagrado da MPB, ou simplesmente acaba, como vem acontecendo com a geração de bandas que foi tachada de “cena indie” nos idos de 2004/2004.

(Essa mesma turma vivenciou uma experiência muito interessante enquanto estava praticamente à sua disposição o Teatro Maurício de Nassau, no Recife Antigo. Foi naquele espaço que bandas como Rádio de Outono e Mellotrons começaram a consolidar um público próprio. Com o fim daquele circuito, tenho a impressão que nada semelhante surgiu na cidade. Devo estar enganado. De qualquer forma, casas como aquela fazem falta.)

De que forma o poder público poderia estimular o surgimento desses espaços? Eu não sei. Isso requer um conhecimento mais profundo. Mas falta uma política pública que, por exemplo, desburocratize o acesso de produtores culturais e empresários a imóveis em áreas de interesse, como o Recife Antigo. E, em especial, acho que precisamos de um programa amplo que capacite pessoas para as atividades de produtor cultural e microempresário do ramo. Uma incubadora cultural, nos moldes das que existem nas universidades e institutos tecnológicos, pode ser uma idéia interessante.

Já se foi o tempo em que o papel do Estado era apenas garantir o acesso à cultura. Está na hora de se começar a perceber a música pop, por exemplo, como uma atividade de grande potencial econômico e cultural no Recife, que pode envolver segmentos como o turismo e a tecnologia da informação. É lógico que isso não depende apenas dos governos. Mas eles podem dar uma importante contribuição e, principalmente, gastar melhor os seus orçamentos.

2 Respostas para “Precisamos de mais inferninhos”

  1. ggtiago Disse:

    E se alguém for reclamar que Recife não tem público, digo que nas duas noites que eu fui pro dito festival tinha gente pra lotar um inferninho dos bons…
    Podem ser até poucos, mas fieis.

  2. Bruno Nogueira Disse:

    Tem dois problemas ai que acho que não se resolvem em curto prazo. O primeiro é que a Prefeitura passou a competir com a produção privada de uma forma injusta. O dono do inferninho, sendo otimista, consegue te pagar uns R$ 100 pelo show. E precisa cobrar R$ 10 pelo ingresso para isso. Então o PT vai e te paga R$ 1 mil pelo show e ainda realiza ele de graça, na frente do inferninho (que, afinal, é o que o Marco Zero é). Não tem inferninho que sobreviva assim, por mais que o show de uma banda local tenha “grande potencial econômico”.

    Em outras cidades, o Governo quando produz, tenta se manter no nível da produção privada. Paga cachês menores e sempre cobra ingresso. Mesmo baixo, só para não perder o hábito.

    O segundo problema é que o público é cumplice de toda essa história. Tem público suficiente no festival para lotar o inferninho? Mas eles vão pagar para entrar lá ou vão pensar que, bom, é melhor esperar para ver de graça? Esse é o problema mais clássico que o Recife carrega. Em parte vem de uma coisa que é até legal, que é a classe média alta e baixa convivendo em mesmos espaços… Mas se um lado a prefeitura faz o show de graça pensando que o indice de probreza atinge 50% da população, a outra metade, que diz que pode pagar, prefere se aproveitar da diversão gratuita. Mesmo que o inferninho ofereça ar condicionado, segurança, bebida gelada a noite toda e por ai vai.

    É um papo que rende. O que mais sinto falta é alguém para tomar a iniciativa. Um monte de gente banda veio reclamar para mim da programação de ano novo da prefeitura. Nenhum pensou em produzir sua própria festa de reveillon. Para quem eu sugeri, ainda riram e falaram “ai é foda”.

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