Outro dia desses eu me peguei lembrando dos idos de 2004, 2005, quando alguns jornalistas começaram a falar do surgimento de uma cena indie no Recife. Isto rendeu várias matérias nos diversos cadernos de cultura dos jornais locais, e até em veículos de fora. Me questionei por vários dias sobre as razões que fizeram com que aquele movimento simplesmente desaparecesse do mapa, mesmo que as bandas que o compunham ainda estejam por aí. A minha conclusão é que a cena se estatizou, e isso acabou com ela.
De lá para cá, Recife não mudou muito. Continua sem ter uma quantidade expressiva de locais onde as bandas possam se apresentar, as casas noturnas continuam desprezando a música pop produzida na cidade e assim por diante. Assim como hoje, aqueles grupos precisavam se virar para fazer shows do jeito que podiam, investindo dinheiro do próprio bolso para alugar som, imprimir cartazes e cobrir todos os eventuais custos que surgissem. Isso, bem ou mal, gerou um certo cooperativismo entre as bandas e este intercâmbio – de músicos e dos seus respectivos públicos – fez surgir o que veio a se chamar de cena.
Esta cena era viva. Restrita, mas viva. Era difícil que não tivesse um show de algumas dessas bandas pelo menos de duas em duas semanas. (Eu lembro de um colega de faculdade relcamando que “não agüentava mais shows do Mellotrons!”) Foi nessa época e nesse esquema que nós tocamos com bandas como Rádio de Outono, Retrovisores, Parafusa e algumas outras. Combinações que, até onde lembro, não voltaram a se repetir.
Mas aí a cena começou a crescer e querer voar mais alto. Aparecem os festivais, os grandes palcos, as multidões, as aparições na televisão, o reconhecimento das pessoas no meio da rua. As bandas começaram a cansar de carregar amplificadores para cima e para baixo, de correr risco, de ter que ir de bar em bar colar cartazes dos shows e de pôr tudo a perder numa noite em que São Pedro resolvesse que ia cair uma chuvarada. A cena se acomodou. E morreu.
Eu entrevistei Paulo André recentemente para um caderno especial sobre cultura, e ele me disse uma coisa com a qual concordo: Recife se tornou a capital dos shows gratuitos, mas essa política não beneficiou as bandas. Ao contrário. As bandas hoje vendem menos discos e ingressos de show.
Acho que é, sim, papel do poder público garantir o acesso a cultura e subsidiar parte da sua produção. Longe de mim ser tachado de liberal ou qualquer coisa dessa estirpe. Mas quando analiso o quadro atual, não tenho como não pensar que isso ajudou a matar a tal cena indie.
Aqui, as bandas viraram escravas do cachê pago pelo poder público. Estatizaram-se. Ficaram dependentes da prefeitura e dos seus palcos. Tornaram-se burocratas. Não querem mais saber de fazer seus próprios shows, a não ser se for com uma “grande” banda do Sudeste do país, de preferência com algum sujeito de franja que apareça regularmente na MTV.
O caixa das bandas deve estar muito mais saudável nesses dias, e isso é bom por um lado. Fazer música não é necessariamente fazer voto de pobreza. Mas a impressão que eu tenho é de que os músicos passaram a cagar e andar para o esforço em criar um público e uma cultura de shows na cidade. E agora pagam por isso.
Com o Mellotrons, tocamos algumas vezes nesse esquema estatal. E foi muito bom. Todo músico gosta de subir num palco grande, de tocar para uma multidão num som bom e todas essas coisas. Mas hoje, que a banda está parada, estou com mais saudade de tocar num inferninho para umas cem pessoas do que de qualquer outra coisa.