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My piano

março 29, 2008

Esta é a versão bruta de uma das minhas matérias preferidas. Estava perdida nos confins do meu HD. Foi capa do Suplemento em algum mês de 2007, a única que eu fiz em mais de um ano de colaboração. O ideal seria reproduzir as fotos de Alexandre Belém e a diagramação de Jaíne junto com o texto. Os dois captaram o clima exato que eu queria passar com as palavras, e as transformaram em algo muito melhor. Minha idéia era falar sobre as pessoas que trabalham com afinação e restauração de pianos, mas o foco acabou se ampliando.

1. “Pode ser na segunda-feira às 7h30?”, me pergunta Jonas Chateaubriand Filho por telefone. É preciso que a entrevista seja bem cedo, porque a sua empresa, a Chateau Pianos, é uma das referências em restauração, afinação e transporte de pianos no Nordeste. Isso exige que Jonas e sua equipe estejam sempre viajando. “É que eu estou indo ver uns pianos em Campina Grande à tarde”. Sem problemas.

Ao chegar à Chateau, como era de se esperar, tudo que se vê são pianos. De cauda inteira, meia cauda, um quarto de cauda, verticais, máquinas de piano abertas, pianos novos, pianos velhos, alguns muito velhos, outros caindo aos pedaços e aquele cheiro de madeira, verniz e óleo que só quem já abriu um desses instrumentos conhece. De fora, a casa, no bairro de Água Fria, parece uma firma comum. Mas é só atravessar o portão e uma sala que surge à vista uma grande oficina. Lá dentro, a sensação é de que o tempo parou e a cidade ficou pra trás.

Jonas me conta que está no ofício desde bem moço. “Eu comecei com 18 anos, com cara de menino, ainda. Não conseguia emprego em canto nenhum, aí comecei a ajudar meu avô a transportar pianos”, diz. Foi com o avô e um tio, os irmãos Nathanael e Djalma Pessoa, então proprietários de uma oficina especializada, que Jonas aprendeu a trabalhar com os instrumentos. Ele me mostra vários recortes de jornais em que seus mestres são citados, mas destaca um deles, publicado em 1988, que relata a passagem da profissão do avô para o neto. “Considero esta matéria o meu diploma”, recorda.

Ativa desde 1985, a Chateau Pianos tem hoje dez funcionários. “Um dos nossos marceneiros trabalhou com o meu avô”, se orgulha. A maior parte das pessoas que lá trabalham, contudo, foram formadas dentro da própria oficina. No meio da nossa conversa, ele me apresenta a Joab. “Ele é afinador. Começou a trabalhar comigo quando tinha 14 anos. Agora está com 30”.

Foi a Chateau que montou o recém adquirido piano Steinway & Sons do Teatro Santa Isabel. Pelas mãos do pessoal da equipe comandada por Jonas passaram os pianos das universidades federais de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, pianos de conservatórios, teatros e festivais de música em toda a região. Não é exagero afirmar que todos os grandes pianistas que passaram pelo Recife nos últimos 20 anos puseram as mãos em instrumentos previamente restaurados, afinados, transportados, montados ou mesmo adquiridos junto à empresa. A lista é extensa, e inclui desde grandes nomes da música erudita, como Nelson Freire, Miguel Proença, Cussy de Almeida e Clóvis Pereira, até mestres da música popular brasileira, dos quais podemos citar a família Jobim, Wagner Tiso e tantos outros.

Nós tivemos uma longa conversa sobre pianos, pianistas, feltros, teclas, madeiras, cordas e a máquina de fazer bordões dos anos 30 que ainda está em atividade, mas quando estamos chegando ao fim, Jonas pergunta se pode fazer um alerta. Claro. “Olhe, a gente não é nada. No Brasil se vendem cerca de mil pianos por ano. Nos Estados Unidos, esse número chega a 100 mil. Os governos não prezam por essa área de construção e reforma de pianos”, lamenta. “Nós não somos comerciantes comuns. Estamos trazendo arte para a população, colocando cultura na mão deles”.

A preocupação de Jonas é com a preservação da atividade. “Eu sou a terceira geração, estou aqui por acaso. Os meus herdeiros são os meus funcionários”, diz. “O meu alerta é para que isso tudo não se perca. O Brasil tinha várias fábricas de pianos. Hoje, só tem uma”, lembra. “O piano forma um cidadão com sensibilidade e visão de mundo diferentes”.

2. Em julho de 1953, o jovem Francisco Reinaldo Ebbers saiu do Recife para visitar sua mãe, que se mudara para Curitiba. Havia concluído o curso científico, estava sem trabalho e, através de um primo que trabalhava na fábrica paranaense de pianos Essenfelder (fechada em 1996), conseguiu um emprego de afinador lá. “Eu já tocava piano. Quando mamãe comprou um, eu pedi a chave ao meu pai, e, aos 12 anos, já afinava de ouvido o instrumento”, conta Franz, como é mais conhecido.

Quando chegou lá, um técnico chamado Schneider entregou-lhe uma chave e uma paleta, colocou-o à frente de um piano e mandou que o afinasse. À época, Franz tinha apenas 22 anos. Depois de uns 30 minutos, o técnico lhe disse: “não é exatamente isso que você ta fazendo, mas você tem bom ouvido. O resto se aprende: o essencial é ter bom ouvido”. E foi assim que ele se tornou afinador de pianos.

Após dois anos de trabalhos na Essenfelder, ele retornou ao Recife. Desde então, nunca se dedicou exclusivamente ao ofício, exercendo-o paralelamente a outras atividades. Mesmo assim, hoje Franz é responsável pela afinação de alguns dos principais pianos da cidade, como o do Teatro Santa Isabel e o da Universidade Federal de Pernambuco.

Pelas mãos de Franz, passaram instrumentos tocados por virtuosos como Nelson Freire, Arthur Moreira Lima, Arnaldo Cohen e Elyanna Caldas. Atualmente aposentado, ele viaja freqüentemente a capitais vizinhas para afinar pianos e, quando me recebeu em sua casa, havia voltado há pouco de João Pessoa. “Passei sete dias lá. Afinei 17 pianos, dessa vez”, conta, sem alarde.

Apesar de tantos anos dedicados à afinação de pianos, Franz conta que não tem um exemplar em casa. “Me desfiz dele. Eu quase não tinha tempo de tocar, então ele ficou sem uso. Quando apareceu uma boa oportunidade, eu o vendi”. Questiono se ele não sente falta de ter um piano em casa. “Falta, a gente sente. Mas tem tanto piano pra afinar…”.

Pergunto se ele já ensinou alguém a afinar piano, se tem a preocupação de passar à frente a arte que vem exercendo há tantos anos. Com sinceridade, ele me diz que não, que não se preocupa com isso. “Só se pode ensinar a dinâmica do trabalho. O resto depende do ouvido”, diz. “Hoje em dia existem uns aparelhinhos, mas eu só confio no meu ouvido. Já estou com 76 anos, mas meu ouvido ainda está bom”.

3. Se é triste perceber que o universo dos pianos parece estar em extinção no Brasil, a fabricação artesanal de outros tipos instrumentos encontra espaço para se desenvolver cada vez mais. É o que me conta Abílio Sobral de Lima, um artesão e músico que começou a fabricar seus próprios instrumentos de percussão por não ter condições de comprá-los.

Nascido e criado no Morro da Conceição, Abílio começou a tirar os primeiros sons percussivos aos 13 anos de idade. Depois, virou percussionista. “Foi assim que construí a minha primeira bateria. Comecei a fazer por necessidade. Faltavam os recursos, então eu tinha mesmo é que me virar”. Ele passou então a fabricar, recuperar e vender baterias.

Aí veio o movimento Mangue e, com ele, o súbito interesse dos jovens pelos tambores de alfaia do maracatu. “Eu já fabricava o cilindro, só faltava as cordas. Então eu fui passar uns dias com os maracatus para aprender”, conta. Hoje, Abílio integra a Só Instrumentos, uma cooperativa de artesãos que fabrica diversos instrumentos de percussão e ocupa um espaço da Prefeitura do Recife na avenida Norte, onde o material é vendido. Ele também ministra oficinas com o objetivo de repassar o conhecimento para os interessados, em especial nas comunidades.

E não são apenas os instrumentos de percussão que despertam interesse.

Há cerca de um ano eu havia entrevistado o músico e luthier Sávio Couto, que fabrica instrumentos de corda como bandolins, cavaquinhos, violas caipiras e, principalmente, violões. Ele havia me recebido no quintal da sua casa, utilizado como oficina. “As coisas estão melhorando”, ele me conta um ano depois, quando novamente nos encontramos.

“Venho recebendo uns pedidos de fora por causa do site na internet. Estou reformando a oficina, comprei umas máquinas novas, e agora tem uma pessoa trabalhando comigo”, diz. Conheço Jemerson, um rapaz de 19 anos, aparelho nos dentes, que agora está aprendendo com Sávio a arte de construir violões. “Eu sou filho de marceneiro. Nasci na marcenaria, e sou músico também, estudei na escola municipal de arte João Pernambuco”, conta.

Nós três passamos a tarde sentados no chão da casa de um vizinho conversando sobre madeiras, tipos de verniz, sobre a lei da simetria e acabamentos. Sávio me contou sobre a diferença entre a Escola Italiana, de violinos e violoncelos, para a Escola Espanhola, dos violões. Quando já estava anoitecendo, e eu precisava ir embora, Jemerson me diz: “É uma pena que a oficina esteja em reforma. O ideal era que a gente pudesse ter essa conversa lá, daria pra visualizar tudo melhor. Com certeza o teu texto ia sair muito mais poético”.

Eu concordo com ele.

O valor da música

março 13, 2008

Esta é a versão não-editada do texto que escrevi para a última edição do Pernambuco, o suplemento cultural do Diário Oficial do estado. Tem uns errinhos, tipo “quarteto de Oxford”, que eu tô com preguiça de corrigir.

O valor da música

Os discos sempre foram objetos de desejo na minha vida. Sou de uma geração que viu os tios se encantarem com a nova tecnologia e darem fim a imensas coleções de LPs, para depois comprar tudo de novo em “disco laser”, que era como se chamavam os CDs naquela época. Foi o último sopro de prosperidade de uma já cambaleante indústria fonográfica.

Sou de uma turma que ia ao centro da cidade para fuçar catálogos caindo aos pedaços a fim de encomendar aquele disco que não se encontrava nas lojas convencionais. Se tudo corresse bem, sem nenhuma greve dos Correios ou da Receita Federal, a torturante espera poderia durar “apenas” 30 dias. E, quando o disco chegava, rasgar o plástico, abrí-lo, sentir o cheiro, colocar para tocar, folhear o encarte, tudo isso fazia parte de um ritual que se repetia só de tempos em tempos.

Mas nem sempre o disco, como meio físico, exerceu este fascínio sobre as pessoas. Até o final dos anos 30, é importante ressaltar, os discos não tinham sequer capa. Vinham em envelopes de papel com um furo na parte da etiqueta do vinil, que servia para identificá-lo. O comprador estava adquirindo uma cópia do fonograma, e só. A idéia de que o disco poderia conter elementos físicos e extramusicais que atraíssem o consumidor, como uma capa ilustrada, só surge por volta de 1938, quando Alex Steinweiss a inventa e revoluciona o mercado fonográfico. Mas isso é passado e o disco, se você ainda não sabe, morreu.

Depois que uma das bandas de maior sucesso internacional de crítica e público dos últimos 15 anos, o Radiohead, anunciou que não iria renovar seu contrato com nenhuma grande gravadora e que lançaria seu álbum através da internet, o mercado fonográfico tremeu nas bases. Mas a atitude mais radical do quarteto de Oxford, Inglaterra, ainda estava por vir.

Para fazer o download das músicas, o usuário precisou se cadastrar e decidir um valor a pagar pelos arquivos. Qualquer preço podia ser escolhido, inclusive preço nenhum. De acordo com a revista Wired, cerca de um milhão de fãs em todo o mundo baixaram In Rainbows do site do grupo no período de um mês. Por volta de 40% deles pagaram alguma quantia (eu me incluo nos 60% que deixaram o marcador no zero).

Em média, seis libras foram pagas por cada venda de fato, o que rendeu ao Radiohead algo em torno de 3 milhões de libras. Nenhum centavo para a gravadora. Alguns meses depois, o disco foi lançado normalmente em CD através de um selo independente, o XL Recordings. O que os músicos alegaram é que estavam querendo fazer com que as pessoas refletissem sobre o verdadeiro valor da música para as suas vidas. Que valor?

Walter Benjamin escreveu que “o que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da arte é a sua aura”. O conteúdo da obra de arte permanece intacto, mas o “aqui” e o “agora” ficam desvalorizados. Entretanto, se o avanço técnico da reprodução multiplica a obra e substitui sua existência única por uma existência serial, a indústria cultural precisou criar para seus produtos algo que, a meu ver, é parecido com a aura, mas não se baseia no “aqui” e no “agora”, mas sim no “ter”. (O que são as edições limitadas, por exemplo, senão uma tentativa de dar ao produto cultural certa exclusividade, certa unicidade?)

Na era da troca de arquivos pela internet, contudo, esta falsa aura do disco físico também é quebrada, e ele, aos poucos, vai perdendo sua função. O efeito da reprodutibilidade técnica dos dias de hoje é muitas vezes mais multiplicativo, e também mais radical, na medida em que permite o acesso das pessoas ao seu conteúdo com custo zero. Para Benjamin, as massas modernas tendem a superar o caráter único dos fatos e das coisas através da sua reprodutibilidade. O que as massas fizeram, no caso da troca de arquivos pela internet, foi superar o caráter único do disco, forjado pela indústria cultural, com o apoio da tecnologia.

O que nos traz de volta para o Radiohead. Numa entrevista para a Wired, o vocalista Thom Yorke disse que a decisão de deixar a cargo dos fãs o preço a pagar pela música não foi mero niilismo e que a banda não teve a intenção de insinuar que a música hoje não tem valor. Mas é preciso compreender que, historicamente, a venda de discos é um negócio que rende muito dinheiro para as gravadoras, mas proporcionalmente muito pouco os artistas. Na mesma ocasião, Yorke conta que a EMI, antiga gravadora da banda, não estava pagando nada aos músicos pela venda de música pela internet. O que me leva a crer que tudo se trata de mais um caso da boa e velha luta de classes, mais ou menos como a que o mundo viu recentemente entre os roteiristas norte-americanos e os estúdios de cinema, mas, desta vez, sem sindicatos. E com um quê de vingança e sarcasmo por parte da banda.

Se com a reprodutibilidade técnica a obra de arte se emancipa da sua existência parasitária e destaca-se do ritual pela primeira vez na história, como diz Benjamin, eu me arrisco a dizer que, com a música digital, há uma espécie de segunda emancipação. Desta vez, a obra de arte se destaca, ainda que muito prematuramente, do grande capital. E o Radiohead, mesmo tentando garantir a parte que lhe cabe, está dando uma força para que a troca de arquivos de áudio pela internet não seja definitivamente cooptada. E para que possamos dar à música o seu real valor. O disco se vai em boa hora.


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